dizem os neoliberalistas…

… que uma economia de mercado evolui naturalmente ao encontro dos interesses da oferta e da procura. o neoliberalismo funciona perfeitamente, mas num mercado supérfluo. é fácil concluir o contrário relativamente ao mercado de primeira necessidade.

é fácil de conceber que um mercado independente do estado regido apenas pela concorrência e pelas leis da oferta e da procura evolua no sentido da satisfação do produtor e do consumidor. a concorrência tem conotação positiva pois cria uma competição com vista à criação de melhores produtos a preços inferiores. as leis da oferta e da procura são oportunas, pois se existe excesso de procura os preços sobem para que o produto chegue às mãos de quem tem poder de compra, já que não há oferta suficiente para todos, e quando a oferta excede a procura, os preços descem para que os produtores consigam rentabilizar o seu stock.

a concorrência é muito interessante, mas tem falhado fortemente nos serviços públicos e nos bens de primeira necessidade. é importante frisar primeira necessidade: não interessa o preço desses bens, o consumidor terá de os adquirir, o que significa que os produtores podem concertar entre si as tabelas de preços, deixando de lado a concorrência e facilitando o lucro desenfriado, como temos observado na especulação petrolífera, alimentar, etc…

em portugal temos a autoridade da concorrência, mecanismo regulador do mercado livre cuja existência não está prevista na ideologia neoliberalista, e mesmo assim vemo-nos de braços atados perante o abuso de poder dos provedores de bens de primeira necessidade. para evitar abuso de posições dominantes o neoliberalismo talvez permita a existência de comités anti-monopólio, mas apesar de favorecerem a competitividade entre grandes e pequenos provedores, facilitam a concertação entre os mesmos.

as leis da oferta e da procura falham na premissa de que todo o cidadão tem direito a aceder aos bens de primeira necessidade como a alimentação e a saúde. nesta situação será fácil questionar como satisfazer, então, a procura?. o défice de poder de compra está geralmente associado ao desemprego, e com as taxas que temos em portugal, não me parece que falte mão de obra para sucumbir essa carência em nenhuma área.

pela sua crença no mercado livre os neoliberalistas defendem a privatização desenfriada de tudo e mais alguma coisa. será da crença do leitor que o estado privatiza com vista a rentabilizar os investimentos, pois o privado procurará sempre uma gestão lucrativa do negócio. acontece que quando falamos em negócio de transportes, saúde, alimentação, o estado vê-se obrigado a intervir caso essa gestão falhe, pois os serviços têm de estar disponíveis para a população. deste modo o neoliberalismo falha, pois se o estado vende para o privado negócios rentáveis e compra para o público negócios em vias de falência, o próprio estado falha enquanto empresa, ao mesmo tempo em que seria possível ao estado rentabilizar os seus investimentos sem perda da sua posse.

o estado é a única empresa que pode suportar prejuízos intermináveis se tal for necessário para a sua própria subsistência, já que o estado é o próprio contribuinte. veja-se o estado como uma empresa cotada na bolsa, onde o contribuinte investe em acções todos os anos. em troca das acções, o contribuinte não garante crescimento do seu dinheiro, mas sim o acesso à saúde, à educação, aos transportes, etc. pelo contrário, acontece que o contribuinte adquire estas acções para que os acessos existam, mas o seu uso continua a ser cobrado pelo privado, e se a gestão do privado falhar ainda se vê obrigado a comprá-lo de novo para que não morra.

sempre que ouvires falar em privatizações pensa que posso ser eu o próximo dono do que comes e bebes, da saúde e dos transportes, da educação e da ciência, da água e do ar, do sol e da terra. e se eu fizer asneira, ainda me hás-de salvar da miséria…

enquanto for público não é meu nem teu, é nosso…

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