depois da vida

este é o título do programa da tvi, um pouco mais do que cor de rosa. ao que consta consiste num espaço de contacto com os falecidos, por intermédio da senhora anne germain. este é um tema que me suscita muito interesse, e tem duas faces. uma que sempre me cativou muito, curioso de todas as ciências; e outra que sempre me revoltou, exposto a todas as trapaças. querendo ser das pessoas com a mente mais aberta para estas questões, quero com este texto apenas explicar que poderes como os demonstrados no programa são muito fáceis de falsear. no caso da tvi não há quaisquer dúvidas da falsificação, que é até muito pobre.

esta trapaça não passa de uma ciência a que se dá o nome de leitura fria. com a quantidade de treino apropriada, virtualmente qualquer pessoa pode dominar esta arte, e tornar-se num habilidoso leitor de mentes, ou comunicador com os mortos. posso resumir esta ciência em 3 partes principais, que levam pessoas mais susceptíveis a deixar-se enganar pelo que ouvem. vou usar como caso de uso o programa da tvi, como exemplos de sucesso o mentalista derren brown, e como referência científica algumas personalidades aleatórias.

afirmações de barnumphineas barnum observou um dia que “temos algo para todos”. o que ele queria dizer com esta afirmação é que num conjunto de pessoas, incluindo o universo, é possível encontrar um termo comum a todas. esse termo comum pode ser específico ao ponto de todos acharem que foi especificamente detalhado sobre si, sendo na verdade uma coisa generalizada. isto é uma ferramenta usada para fraudes como a astrologia, e a arte de ler mentes.

em 1948 o professor bertram forer fez uma experiência:

disse aos seus alunos que iria fazer uma leitura individual das suas personalidades, com base nos resultados dos testes de avaliação. cada aluno teve a oportunidade de classificar o grau de sucesso dessa leitura. o professor conseguiu uma cotação média de 4.26, numa escala de 0 a 5. de facto o professor devia ser muito bom a interpretar as personalidades com base nas respostas dos testes, excepto o facto de que a leitura que fez não foi individual, mas a mesma para todos.

o mesmo texto conseguiu descrever com aparente especificidade a personalidade de dezenas de pessoas com um grau de confiança de 85%. derren brown fez exactamente o mesmo teste:

com base num objecto pessoal de alguém e no contorno da sua mão desenhada numa folha, conseguiu fazer uma leitura específica de indivíduos na inglaterra, estados unidos, e espanha. um deles anunciou uma eficácia de 99% na leitura da sua personalidade, e muitos indicaram também 80 a 90%. mais uma vez, o texto foi o mesmo para todos, e escrito meses antes de sequer ter contacto com quaisquer objectos ou imagens.

a minha mãe viu o último “depois da vida”, e contou-me que num dos casos a senhora afirmou que a morte de alguém suscitou uma enorme revolta. trata-se uma verdade que abrange muita gente! se eu me dou ao trabalho de ir ao programa para ter contacto com alguém que perdi, é seguro dizer que essa perda foi trágica, e me causou revolta. não existe um ente querido que morra justamente. anne germain contava também que uma menina teria queimado uma refeição. parecendo isto uma coisa muito específica, é na verdade muito comum. qualquer pessoa que cozinhe com regularidade já deixou queimar uma refeição. se o evento tiver sido recente, o efeito dessa afirmação é muito poderoso; se tiver sido apenas uma torrada há um ano terá menor impacto, mas não deixa de ser uma verdade!

o que leva à segunda parte, a susceptibilidade. uma boa parte da nossa personalidade, especialmente nestes temas muito susceptíveis à experiência de cada um, tem tendência a filtrar partes irrelevantes, e a encontrar sentido específico em aspectos vagos. neste exemplo do contacto com os mortos, a tarefa de um medium está simplificada porque este é chamado a falar com mortos, e todas as pessoas presentes vêm já há várias semanas a pensar nas pessoas que perderam.

michael shermer afirma e defende que o homem tem tendência a acreditar em coisas estranhas. tal acontece como forma de instinto básico de sobrevivência, e algo que nos permitiu evoluir enquanto espécie. a nossa capacidade de encontrar associações e padrões, mesmo quando não existem, foi desde cedo uma ferramenta que nos permitiu tomar decisões seguras em momentos críticos:

um roçar de arbustos numa selva pode ser só o vento ou pode ser um predador. chama-se padrão à associação entre o roçar de arbustos e a presença de um predador, pelo risco que este apresenta. seja qual for o caso, a opção mais segura é sempre assumir que se trata de um predador pois, assumindo o vento, estamos condenados no caso de estarmos errados. assim o homem, bem como muitos outros animais, desenvolveu esta capacidade de encontrar padrões em tudo o que o rodeia. ou melhor: os homens que tinham esta capacidade desenvolvida levaram a melhor! =)

no entanto esta capacidade de encontrar relação causa-efeito encontra muitas vezes o seu extremo, a que chamamos de superstição. a superstição é o que nos leva a encontrar imagens de cristo em torradas. derren brown demonstrou este conceito de uma forma muito simples, e ao mesmo tempo absurda, com base na experiência de burrhus skinner.

um molho de pessoas é encurralada numa sala, que pensavam ser uma festa. fechadas as portas surge um painel a informar de que devem concluir 100 pontos em 30 minutos para que as portas se abram, e outro a dizer que ao abrir as portas, ganham 500 libras, visíveis do outro lado da porta (motivação!). na sala existe um conjunto de objectos espalhados, os contadores são zerados, e a experiência começa.

os intervenientes começam-se a questionar como será que pontuam, e à medida que interagem entre si e com os objectos na sala, tentam encontrar uma relação entre as acções que tomam e o efeito no contador. no entanto chega-se ao ponto em que as suas acções são completamente absurdas, e causam muito entretenimento aos espectadores.

completamente absortos pela tarefa de encontrar os padrões que dão pontos, não reparam no painel que, desde o início, informa que as portas são destrancadas ao fim de 5 minutos e, se saírem, ganham 30 mil libras cada um.

na verdade os pontos eram incrementados sempre que um dos peixes num aquário rectangular passasse uma risca central. isto demonstra claramente que a capacidade de procurar padrões em tudo por vezes leva o indivíduo a alhear-se da racionalidade, e a acreditar nas coisas para as quais num dado momento encontram sentido.

isto demonstra claramente que é possível encontrar certos truques de linguística, ou simples sociologia, que nos permitem proferir afirmações para as quais é fácil uma pessoa encontrar significado, que parece muito específico, apesar de ser inicialmente muito genérico (ruído!). desafiei a minha mãe a questionar-se neste caso do sentimento de revolta, relativamente à morte mais recente que ocorreu na família. inicialmente disse que não sentia qualquer tipo de revolta pelo acontecido, apesar de ter sido uma perda muito sentida, e trágica, mas passado um ou dois minutos tinha já encontrado 2 ou 3 situações que suscitaram uma enorme revolta aquando da perda.

aquilo que inicialmente parece descabido, com um pouco de reflexão adapta-se à nossa realidade de uma forma muito intensa. somos nós que criamos sentido particular para uma afirmação que não passa de algo muito genérico. pior do que isto é a facilidade com que se esquece uma série de afirmações sem nexo se finalmente surgir uma que parece fazer todo o sentido.

como se isto não bastasse, e os artistas não tivessem já ferramentas suficientes, a talvez mais poderosa de todas, é a expressão corporal. uma parte importante da leitura fria consiste em determinar se as afirmações proferidas são verdadeiras ou falsas, qual o efeito que têm no sujeito, e para onde seguir a partir daí. sem que nos apercebamos, o nosso corpo está constantemente a deixar escapar informação. a forma dessa fuga não é exacta nem universal que permita a utilização do polígrafo, mas para um mesmo sujeito é relativamente constante. derren brown é um exímio detector de mentiras, como se pode ver nesta performance.

não é verdade para todos os casos, mas os livros de programação neurolinguística avançam nas primeiras páginas com a interpretação dos movimentos dos olhos de acordo com o raciocínio que as pessoas fazem. por exemplo, se as pessoas estão a processar memórias tendem a olhar para a esquerda. se estão a produzir, no entanto, tendem a olhar para a direita. isto varia de pessoa para pessoa, mas é o mais comum entre destros, tendo eu próprio verificado o oposto para esquerdinos. os sinais são tão poderosos que muitas vezes nem sequer seguem o discurso, que é falso. não seria a primeira vez que uma pessoa me conta uma história e refere, por exemplo, a existência de outras 2 pessoas mas, enquanto o diz, levanta 3 dedos. podendo significar outra coisa (a inclusão de si próprio), confrontamos o locutor com a incoerência e acabamos por descobrir que de facto havia mais 3. como não se tratam de ciências exactas, ainda cabe a pessoas com excelentes capacidades de observação tirar o melhor partido das circunstâncias.

subtilidades à parte, o trabalho de um medium é muito fácil, pois uma afirmação correcta com conteúdo emocional resulta em demonstrações fortes do indivíduo. o trabalho de anne germain em particular é muito fraco, metódico, e probabilístico. a fórmula de introdução é sempre a mesma, e começa por não arriscar muito sobre quem se encontra presente.

por exemplo, na presença de um casal desolado é seguro arriscar que a morte tenha sido de um filho, mas leva o seu tempo até admitir se é rapaz ou rapariga, e fá-lo com base nas reacções (diferenciadas) dos progenitores.

também pode a meio descobrir que afinal era pai, mas aí o discurso que usou vai talvez permitir-lhe admitir que o(a) filho(a) é a pessoa em causa, e não o espírito!

em alternativa pode esquecer por completo o fracasso e procurar outra coisa diferente. vi isto numa leitura onde começa por dizer que vem o pai ou avô de uma senhora de meia idade. a morte de uma destas pessoas, ou ambas, é altamente provável, mas vista a completa ignorância da senhora, passa logo a dizer que esse senhor traz com ele um espírito mais jovem, com o qual continua a conversa, e nunca mais se fala no idoso que queria ser o primeiro a falar, mas nada disse.

não só as introduções e as despedidas são sempre as mesmas, mas o discurso também nunca é revelador e extemamente repetitivo. a série acaba por ser um entretenimento (exactamente onde a tvi categoriza o programa, também) de mau gosto e péssima performance. como a coisa ainda é nova em portugal, passa incólume… se procuram entretenimento deste género procurem pelo material de derren brown que, tirando alguns momentos de marketing, sempre foi “honesto acerca da sua desonestidade”!

One thought on “depois da vida

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>